MANAUS — A destinação de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares no Orçamento Geral da União de 2026 é usada pela educadora popular e pesquisadora Fátima Guedes como ponto de partida para discutir democracia, direitos sociais e poder político no Brasil.
No texto, Guedes questiona se esses recursos corrigem problemas estruturais ou reforçam estratégias de controle por lideranças partidárias. Para ela, deputados e senadores concentram decisões sobre o dinheiro público, enquanto o sistema brasileiro se apresenta como democrático.
Uma metáfora com Bob
A autora recorre à história de Bob, cachorro que costuma escapar de casa, para refletir sobre autonomia e liberdade. Quando ele volta depois de ser repreendido, surge a expressão “agora ele se emenda”, associada à ideia de corrigir comportamentos.
A partir desse episódio, Guedes amplia o sentido de emenda. Nos dicionários, o termo pode indicar correção de erros e revisão de condutas. No campo político e jurídico, aparece como proposta para alterar projetos de lei. Na interpretação popular, também representa uma parcela de dinheiro público direcionada por legisladores às suas bases eleitorais.
Democracia e participação
A pesquisadora cita o Glossário Eleitoral do TSE, que define democracia como governo ou poder do povo. Em seguida, contrapõe esse conceito à concentração das decisões políticas em um grupo reduzido de representantes.
Dados do IBGE de julho de 2026 mencionados por Guedes apontam que o Brasil tem 214.211.951 pessoas. No topo da estrutura política, ela lista 65.249 ocupantes de cargos: 81 senadores, 513 deputados federais, 1.059 deputados estaduais, 58.000 vereadores, 27 governadores, 5.568 prefeitos e 1 presidente.
O texto também retoma episódios históricos, como a exclusão de analfabetos do voto e a cassação do registro do Partido Comunista Brasileiro nos ensaios de implantação democrática de 1946. A autora relaciona ainda a formação política do país ao colonialismo e à imposição de padrões sobre povos, territórios e outras formas de vida.
A ideia de reemendar
Guedes defende a recuperação de memórias, línguas, crenças e tradições comunitárias dos povos originários. A pergunta central é se seria possível reconstituir a formação brasileira a partir desses fragmentos, em oposição à submissão simbolizada pela expressão “Sim, Senhor!”.
Fátima Guedes é uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Ela também participa da Marcha Mundial das Mulheres e da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde.
No texto, Pindorama é apresentado como um nome de origem tupi para o litoral do Brasil antes da invasão portuguesa. A autora afirma que a transformação social depende da organização das bases e da superação da ideia de que quem ocupa o poder é superior à população.








