Câmeras analógicas e compactas digitais estão voltando a aparecer nas mãos da geração Z, mesmo com smartphones capazes de produzir imagens em alta resolução. O interesse combina nostalgia, busca por experiências diferentes e vontade de construir uma identidade visual própria.
Para Simone Marinho, professora de fotojornalismo da Faculdade Cásper Líbero, a procura por câmeras analógicas tem relação com a curiosidade de experimentar algo que muitos jovens não viveram. Escolher o filme, definir o ISO e esperar a revelação colocam etapas entre o clique e o resultado final.
“Gosto desses rituais porque eles nos fazem refletir antes de fotografar”, afirma Simone. A professora também diz que a autenticidade pode estar mais no processo de fotografar do que na aparência da imagem, já que aplicativos e filtros tentam reproduzir granulação, cores desbotadas, tons quentes, flash direto e menor nitidez.
Maurício Namba, proprietário da assistência de câmeras antigas Cine Câmara Service, afirma que clientes entre 20 e 25 anos passaram a procurar, nos últimos dois anos, imagens menos processadas e mais “imperfeitas”. A estética é uma das características que os smartphones não oferecem da mesma maneira.
Filme caro e dificuldade de manutenção
O preço tornou a experiência analógica mais difícil. Rolos de filme que custavam cerca de R$ 30 há alguns anos hoje chegam a R$ 200. De acordo com Maurício, parte dos jovens que procura conserto para câmeras acaba desistindo diante do custo para manter os equipamentos funcionando.
A falta de peças de reposição também pesa. Como muitos modelos têm mais de 20 anos, algumas assistências enfrentam dificuldades para oferecer peças, manutenção e garantia compatíveis com as exigências legais.
As compactas digitais estão de volta
As câmeras digitais compactas também voltaram a circular em festas e pelas ruas. Elas permitem registrar vários momentos e entregar um resultado instantâneo, sem a necessidade de revelar filmes.
A popularização dos smartphones com câmeras mais avançadas começou no fim dos anos 2000 e mudou a relação das pessoas com os modelos digitais que existiam naquela época. Agora, quem passou anos fotografando apenas pelo celular busca novamente equipamentos compactos.
Além da nostalgia, identidade, estética e consumo ajudam a explicar esse movimento. Carregar um objeto diferente do smartphone que quase todo mundo leva no bolso pode ser uma forma de se distinguir ou de se aproximar de determinado grupo e estética.
Para Simone, o retorno das câmeras não representa necessariamente uma rejeição à tecnologia atual. “O smartphone continuará sendo a câmera cotidiana”, diz. Na avaliação dela, equipamentos analógicos e digitais devem continuar como um nicho importante para o hobby, enquanto o celular segue no centro da rotina.
A procura também pode indicar uma busca por uma relação mais concreta com o mundo físico, em um cenário no qual as imagens são produzidas e descartadas rapidamente. O mesmo tipo de interesse aparece, segundo Simone, em discos de vinil e roupas de brechó.







