Zélia Amador de Deus morreu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, em Belém. Professora, escritora, atriz, diretora de teatro e ativista, ela teve uma trajetória ligada à cultura, à Universidade Federal do Pará (UFPA) e à defesa da população negra.
Natural de Salvaterra, no Arquipélago do Marajó, Zélia começou a estudar Letras na UFPA em 1971. A relação com a instituição se estendeu por mais de cinco décadas, período em que ela atuou como professora, pesquisadora, artista e gestora.
O velório será realizado no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém, a partir das 23h. A UFPA decretou luto oficial de três dias.
Teatro e universidade
A carreira artística de Zélia começou a ganhar espaço nos anos 1970. Em 1976, ela fundou a Companhia de Teatro Cena Aberta ao lado de Margareth Refkalefsky e Walter Bandeira. No grupo, interpretou Catirina, em Coronel de Macambira, e Suely, em Quarto de Empregada. Também trabalhou na direção de espetáculos.
Em 1978, voltou à UFPA como professora da área de Artes. Entre as disciplinas que ministrou estavam História da Arte, Estética e História e Teoria do Teatro. Ela também participou da criação do Núcleo de Arte, que deu origem ao atual Instituto de Ciências da Arte (ICA).
A atuação institucional ganhou força nos anos seguintes. Zélia dirigiu o então Centro de Letras e Artes (CLA) entre 1989 e 1993 e foi vice-reitora da UFPA de 1993 a 1997. Nesse período, participou da idealização do Auto do Círio, projeto de extensão que leva manifestações artísticas e culturais às ruas de Belém.
Em 2016, tornou-se a primeira assessora da Diversidade e Inclusão Social da UFPA. A função foi criada para cuidar de políticas voltadas à diversidade e à inclusão na universidade.
Atuação no movimento negro
A militância de Zélia começou ainda durante sua formação. Em 1980, ela esteve entre as fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização que se tornou referência do movimento negro na Amazônia.
A entidade contou com forte participação de mulheres e ajudou a colocar em debate as experiências específicas vividas por mulheres negras. Zélia também participou de articulações contra o racismo no Brasil e no exterior.
Em 2001, integrou a representação brasileira na III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul. Ela também defendeu direitos de comunidades quilombolas e participou de debates sobre políticas de ação afirmativa.
Na UFPA, esteve envolvida na criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM) e nas discussões que contribuíram para a adoção da reserva de vagas na instituição. Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, em 2020, afirmou: “Não tenho dúvida de que as políticas de ação afirmativa mudaram o perfil da UFPA”.
Pesquisa, livros e homenagens
Zélia era graduada em Língua Portuguesa e tinha especialização em Teoria Literária, mestrado em Estudos Literários e doutorado em Ciências Sociais. Parte de sua produção acadêmica foi dedicada a temas como diáspora africana, memória e resistência.
Um dos símbolos presentes em suas reflexões era Ananse, figura associada à tradição dos povos fanti-ashanti e à capacidade de criar histórias e conexões. Em 2019, ela publicou Ananse tecendo teias na diáspora: uma narrativa de resistência e luta das herdeiras e dos herdeiros de Ananse, livro relacionado à pesquisa do doutorado.
Também em 2019, recebeu da UFPA o título de Professora Emérita. Zélia foi a primeira mulher negra a receber a honraria na universidade. A cerimônia aconteceu em março de 2020, com a participação de representantes de movimentos sociais e estudantes indígenas, quilombolas e africanos.
Proposta de patrimônio cultural
A Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) analisava um projeto de lei apresentado pela deputada Lívia Duarte para reconhecer a obra literária de Zélia como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Pará.
A proposta teve parecer favorável das comissões de Justiça e Cultura e estava prevista para ser votada em turno único nesta terça-feira (8), mesmo dia da morte da professora.
A justificativa destacava a atuação de Zélia como professora, doutora, artista, escritora e militante do movimento negro. O documento também mencionava sua participação na formação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), no fim dos anos 1970, e na criação do Cedenpa.
Entre os livros citados estava Caminhos Trilhados na Luta Antirracista, que aborda momentos da luta contra a ditadura militar, da redemocratização e da organização do movimento negro contemporâneo.







