SÃO PAULO — A investigação da Operação Caldarium aponta que a permanência de fiscais em cargos estratégicos da administração tributária paulista era negociada com pagamentos em dinheiro. O fiscal Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como PP, afirmou em delação premiada que entregava R$ 250 mil por mês ao auditor André Weiss.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, a prática não envolvia apenas cobranças contra empresários atacadistas e varejistas. Servidores também precisariam contribuir para continuar em determinadas funções. Weiss foi preso na quinta, 3, junto com o advogado João André Buttini de Moraes.
PP ocupava o comando da Delegacia Regional Tributária da Capital III (DRTC III), no Butantã. De acordo com o depoimento, os repasses começaram em meados de 2023, depois que Weiss assumiu a Diretoria de Fiscalização Tributária. O objetivo seria manter PP na função até sua aposentadoria, em 2024.
Dinheiro em mochilas
A Promotoria afirma que os pagamentos chegaram a cerca de R$ 4,5 milhões em espécie. O dinheiro era levado em mochilas e entregue geralmente em restaurantes da rua Ferreira de Araújo, em Pinheiros, ou em uma doceria da rua Pedroso de Moraes.
O esquema teria atingido o ponto máximo em agosto de 2024, quando Weiss passou a comandar a Diretoria Executiva da Administração Tributária (DEAT). Antes disso, ele ocupava a cadeira número 3 na hierarquia da Receita estadual e tinha poder sobre nomeações em todo o Estado.
Para o Ministério Público, essa posição permitia influência sobre diretores, delegados regionais tributários e outros servidores, incluindo decisões sobre alocação, permanência e atuação de fiscais. A DRTC III atendia empresários interessados em ressarcimentos de créditos tributários antecipados e inflados. Buttini de Moraes fazia a ligação com a Receita estadual, negociava condições e valores e repassava recursos ao núcleo público, segundo o inquérito.
Delação e novas suspeitas
Em fevereiro passado, promotores do Gedec fizeram buscas na casa de PP. Depois disso, ele decidiu colaborar com as investigações em troca de benefícios e passou a relatar condutas de colegas e as próprias ações.
Ao determinar a prisão de Weiss, o juiz Nelson Augusto Bernardes de Souza afirmou: "A vantagem indevida não remunerava, aqui, a decisão sobre este ou aquele processo: remunerava a própria alocação do agente público no ponto da estrutura em que a decisão viria a ser tomada".
Mesmo aposentado, PP teria intermediado o acesso reservado de um advogado à cúpula da Delegacia Regional III e pedido que seu nome não fosse mencionado. Em 6 de janeiro de 2026, escreveu: "Não citar o meu nome também".
A Fazenda informou que colabora com a Promotoria e já demitiu cinco auditores e afastou 17 desde o início das apurações. Buttini de Moraes foi afastado da gestão do escritório para se dedicar à defesa e ao esclarecimento dos fatos. A defesa de Weiss ainda não havia sido localizada.








