SÃO JOSÉ DOS CAMPOS — A Manger Cadavre? lançou o videoclipe de “Obsolescência Programada”, faixa do álbum Como Nascem os Monstros. Filmado nas ruínas da antiga Tecelagem Parayba, o vídeo usa uma estética inspirada nos anos 1990 para relacionar o descarte de produtos à substituição de trabalhadores.
A música parte da ideia de que alguns produtos são fabricados para se tornar obsoletos. Na leitura da banda, essa lógica também aparece no trabalho, marcado por insegurança, pejotização e falta de garantias sociais.
“Em época de pejotização, em que boa parte dos trabalhadores não possui direitos e garantias sociais, a insegurança é algo constante no dia a dia”, explica Nata de Lima, vocalista da Manger Cadavre?.
Ruínas, câmeras antigas e metal extremo
O clipe foi produzido por Gustavo Rodrigues. A narrativa acompanha inicialmente um explorador pelas ruínas da antiga tecelagem e depois mostra seu encontro com a banda, em cenas gravadas no Hocus Pocus Estúdio, também em São José dos Campos.
A direção visual aposta em handycams antigas, granulação, saturação e efeitos associados à linguagem audiovisual dos anos 1990. A escolha acompanha a crítica do grupo à padronização estética provocada pelas novas tecnologias e à busca por uma imagem perfeita e sintética.
A Manger Cadavre? completa 15 anos de trajetória no death crust e no hardcore. O grupo já passou por boa parte do Brasil e por festivais como o Abril Pro Rock. Em 2024, tocou no Obscene Extreme, na República Tcheca. Em 2025, realizou a tour de Como Nascem os Monstros.
O álbum foi finalista do Prêmio TMDQA! de 2025 entre os melhores lançamentos de metal. O disco investiga diferentes manifestações do medo, incluindo desemprego, precarização e a sensação de que pessoas e trabalhos podem ter uma data de validade.
Da experiência em Berlim à letra
Nata escreveu a letra depois de uma situação vivida durante a primeira turnê europeia da banda, em Berlim. Ao preparar um almoço para cinco pessoas, ela gastou cerca de oito euros em ingredientes que, no Brasil, custariam pelo menos R$ 200.
O choque aumentou quando a vocalista percebeu que o molho comprado na Europa era feito com tomates cultivados no Brasil. A experiência aconteceu durante a alta do café e um período de forte exportação de commodities brasileiras, enquanto ela observava diferenças de preços, consumo, qualidade e tecnologia em produtos cotidianos.
O instrumental já estava pronto, com referências de Bolt Thrower, Carcass e do death metal dos anos 1990 nas cordas, além da energia do hardcore crust na bateria. A letra transformou a experiência em uma reflexão sobre consumo, desigualdade, dependência econômica e trabalho.
A antiga Tecelagem Parayba reforça essa ideia: o espaço, antes ligado a máquinas, produção, empregos e trabalhadores, hoje aparece como ruína.
A Manger Cadavre? é formada por Nata de Lima, no vocal; Marcelo Kruszynski, na bateria; Paulo Alexandre, na guitarra; e Bruno Henrique, no baixo.







