BELÉM — Zélia Amador de Deus morreu na terça-feira (8), aos 76 anos, e deixou uma trajetória ligada à educação, à cultura e à luta antirracista no Pará. Professora universitária, pesquisadora, escritora, atriz, diretora de teatro e militante dos direitos da população negra, ela atuou na Universidade Federal do Pará (UFPA), no movimento negro e na defesa de comunidades quilombolas.
Nascida em 24 de outubro de 1949, no território quilombola de Mangueiras, em Salvaterra, no Marajó, Zélia chegou a Belém aos 15 anos. Na UFPA, foi professora, ocupou a vice-reitoria entre 1993 e 1997 e recebeu o título de professora emérita em 2019.
Educação e movimento negro
Zélia foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e participou da criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) e do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (GEAM/UFPA). Também contribuiu para o debate sobre ações afirmativas e para a ampliação da presença da população negra na universidade.
Cristina Maria Areda Oshai, professora e diretora na Superintendência de Políticas Afirmativas e Diversidade (Diverse/UFPA), afirma que Zélia mostrou, pela própria trajetória, que pessoas negras poderiam ocupar espaços de conhecimento e poder. A professora também destacou o respeito de Zélia por povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
Em 1987, Zélia representou o movimento negro do Pará em uma mobilização nacional voltada à elaboração de propostas para a Assembleia Nacional Constituinte. Sua atuação esteve ligada à construção do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que reconheceu o direito à propriedade definitiva das terras ocupadas por comunidades quilombolas.
Na UFPA, ela também participou da defesa das ações afirmativas antes da aprovação da Lei de Cotas, em 2012. A universidade havia aprovado uma política de ação afirmativa em 2005, após mobilizações do movimento negro.
Racismo e permanência na universidade
Cristina Maria avalia que o acesso ao ensino superior não garante, sozinho, a permanência e a inclusão. Para ela, estudantes negras ainda enfrentam efeitos do racismo estrutural e institucional, além de dificuldades relacionadas ao trabalho, à maternidade e à falta de apoio.
A professora também cita avanços associados à geração de Zélia, como a criminalização do racismo, a Lei nº 10.639/2003, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana, e políticas específicas para a população negra em áreas como saúde, educação, assistência e ingresso no serviço público. Ao mesmo tempo, aponta uma distância entre o que está previsto nas leis e a aplicação efetiva dessas medidas.
Para César Atotô, militante e membro do Cedenpa, Zélia foi uma das principais lideranças do movimento negro no Pará. Ele relaciona a atuação dela à implantação das políticas de cotas e destaca a união entre educação, arte e militância contra o racismo.
A presença de Zélia na cultura também foi lembrada pelo Cedenpa. Em 2024, o bloco afro da entidade a homenageou com a música “Mãe de Abalu”, sobre a luta antirracista, sua trajetória no teatro e sua participação na Coalizão Negra por Direitos.
Memória e continuidade
Em 18 de agosto deste ano, Zélia participou do plantio de um baobá no Campus Guamá, em Belém. A UFPA associou a árvore à ancestralidade, à memória de povos africanos e afrodescendentes, à resistência e à continuidade. Depois da morte da professora, o plantio passou a representar também a permanência de seu legado.
A universidade decretou luto oficial por três dias. Em nota, o reitor Gilmar Pereira da Silva afirmou que Zélia ajudou a transformar a UFPA com sua presença, inteligência, arte, coragem e capacidade de abrir caminhos.
Zélia será homenageada no lançamento do 32º Auto do Círio, programa de extensão da UFPA, marcado para este domingo (13), na Praça da República, em Belém. O tributo reconhecerá sua contribuição para a história da manifestação artístico-cultural e para a valorização da cultura, da arte e da identidade amazônica.
A memória da professora permanece nas políticas de igualdade racial, na presença de estudantes negros na universidade, na defesa das comunidades quilombolas, na produção intelectual, no teatro e nas pessoas que continuam ocupando espaços que ela ajudou a abrir.







