SÃO PAULO — O diagnóstico molecular passou a ter papel decisivo na escolha de tratamentos contra o câncer, mas a demora para realizar exames e comprar medicamentos ainda pode adiar o início da terapia. Em alguns casos, pacientes conseguem manter a doença sob controle por anos e com qualidade de vida.
Helano Freitas, oncologista clínico e líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C. Camargo Cancer Center, explicou que o avanço no conhecimento sobre a biologia dos tumores multiplicou a classificação das doenças. O adenocarcinoma de pulmão, por exemplo, passou a ser dividido em diferentes tipos, incluindo alguns raros.
“Conhecer isso faz uma diferença enorme na seleção do tratamento. Mas a gente só conhece isso fazendo teste molecular do tumor”, afirmou Freitas.
O peso da demora
O acesso aos exames varia conforme a estrutura disponível. Segundo o oncologista, uma amostra pode sair de Maceió para ser analisada em São Paulo, e o resultado levar 45, 60 dias para retornar. Esse intervalo interfere no começo do tratamento.
A distância entre a inovação e o atendimento também aparece nos medicamentos. Helaine Capucho, diretora de Acesso ao Mercado da Interfarma, disse que mesmo após a incorporação de um remédio ao SUS, a compra pode levar 37 meses. Para ela, isso envolve três ciclos orçamentários.
As terapias-alvo, a imunoterapia, os anticorpos específicos e outras estratégias passaram a ser usadas em diferentes fases da jornada do paciente. Carlos Gil Ferreira, oncologista e CEO da Oncoclínicas, afirmou que essas plataformas podem ser combinadas conforme a evolução de cada caso.
Como financiar a inovação
Os especialistas também discutiram formas de definir preços e financiar os tratamentos. Freitas defendeu que a avaliação considere o benefício entregue, e não apenas o fato de um medicamento ser novo. Ele também questionou a manutenção dos preços mesmo depois que o uso se amplia.
O oncologista citou a chegada de medicamentos semelhantes, lançados dez anos depois e com preços mais baixos, como um dos fatores que pressionam os valores. Para Carlos Gil, a mudança precisa alcançar não só as moléculas e os testes diagnósticos, mas também os processos de financiamento, incorporação e compra.







